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ATERRAMENTO

 

 

“Aterramento? Simples demais! Vá em qualquer casa de material elétrico e compra uma barra de cobre, 1,5 metro de comprimento já está bom. Enterre bem no quintal, depois prenda um fio e pronto, tá feito! (...) Ah, mora em apartamento? Usa o aterramento do pára-raio. (...) Não tem pará-raio no seu prédio? Então quebre uma viga até encontrar a ferragem, prenda um fio aí e tá resolvido! É muito simples, não tem mistério!”

Essa foi aproximadamente a descrição da minha primeira “aula” sobre aterramento, quando comecei a trabalhar com informática. Para o “professor”, era tudo muito simples e fácil de fazer. Provavelmente, ele nunca ouviu falar de terrômetro, potencial zero, aterramento em triângulo ou em estrela, etc. Provavelmente ele nem sabia direito para que o aterramento serve. Mesmo assim,  “dava aula” sobre o assunto.

Todos nós trabalhamos com energia elétrica. Se não houvesse eletricidade, estaríamos de volta ao início do século XIX, com tudo movido à vapor. Mesmo sendo imprescindível, sabemos, pelos diversos exemplos diários nos jornais, que eletricidade pode se tornar algo perigoso, com risco de vida! Ainda assim, quase ninguém se preocupa em estudar um assunto que pode salvar a vida de alguém, ou então evitar muita dor de cabeça, que é o aterramento. E não é por falta de material de estudo:

E nem por falta de dinheiro para comprar livros. Existem excelentes manuais sobre aterramentos elétricos gratuitos, como o disponibilizado no no site da Procobre:

http://www.procobre.com/pr/pdf/pdf_pr/03_aterrame.pdf

Ou ainda, basta consultar um engenheiro eletricista ou um eletrotécnico (pessoas com curso técnico em Eletrotécnica ou superior de Engenharia Elétrica, com registro no CREA)

Mesmo com todos esses recursos, poucos dão tão importância para tal assunto, e quando não ocorrem somente prejuízos materiais, são vidas humanas ceifadas mesmo.
Para entender a importância do aterramento de uma instalação elétrica, vamos primeiro conhecer e estudar sua função.

O aterramento tem por função básica interligar um circuito elétrico (um equipamento que use eletricidade para funcionar) à terra (no sentido propriamente dito; chão, solo, piso), servindo assim como pólo de referência de potencial zero (tensão = 0V), ajudando no desempenho do aparelho.

Para um circuito elétrico funcionar, deve haver no mínimo um pólo positivo (fase) e um pólo negativo (neutro). Entretanto, circuitos elétricos complexos (equipamentos eletrônicos, como os usados em sonorização e informática, entre outros) podem precisar de um terceiro pólo, que é o de referência. Este pólo de referência (ou referencial) serve como parâmetro para o funcionamento do equipamento, e sem ele o desempenho do aparelho pode ser prejudicado. Em geral, esse pólo de referência tem que ter potencial zero, ou seja,  zero Volts.

Além dessa função, o aterramento perfaz um caminho alternativo de baixa resistência entre a fase e a terra, para uso em eventual necessidade e determinadas condições.

Entenderam a linguagem técnica? Talvez seja necessário explicar melhor:

1) Segurança pessoal do usuário

Por norma (recente, infelizmente), todo equipamento com gabinete (caixa, carcaça) metálico tem que ter sua carcaça aterrada. Isso significa que, se houver um problema de isolação (por exemplo, um fio solto internamente que encosta na carcaça, energizando-a), essa energia poderá desde danificar o equipamento até produzir um choque em alguém que encoste na carcaça.

Exemplos muito comuns: alguém que toma choque quando encosta no gabinete do computador, alguém que toma choque quando vai mexer nos ajustes do chuveiro elétrico (os antigos eram de metal, mas todos os novos são com carcaça de plástico para evitar esse tipo de problema). Em ambos os casos, se houvesse aterramento, os usuários não sofreriam com esse problema.

Indo para o áudio, o problema é muito mais sério. As conexões balanceadas, que incluem um condutor (a malha de terra) que faz o papel de “terra”, são ligadas fisicamente à carcaça dos equipamentos, incluindo mesas de som. No outro lado, nos microfones, a malha de terra também é ligada à carcaça do microfone. Em sistemas onde a ligação entre equipamentos é balanceada, ou seja, há sempre uma malha de terra conectada às carcaças dos equipamentos, interligando-as, basta um único aparelho com “fuga de corrente” (o nome popular para problema de isolação) para contaminar todo o sistema. E todos os aparelhos interligados ao sistema – do microfone ao amplificador vão dar choque e/ou poderão sofrer danos!

Alguém pode falar que sempre trabalhou com áudio e nunca viu dar esse tipo de problema. Realmente é raro, mas quando acontece, em geral vira nota no jornal. Na seção de obituário. Exemplos:

“Um pastor foi eletrocutado dentro de sua igreja, no Texas (EUA) na manhã de domingo, enquanto fazia um batismo. Ele ajustava um microfone ao mesmo tempo que pisava em água.

O Reverendo Kyle Lake, de 33 anos, estava pisando no batistério quando pegou um microfone, que produziu um choque elétrico, disse o pastor Ben Dudley, da comunidade da Universidade da Igreja Batista.

A água no batistério normalmente alcança acima da cintura, disse o Byron Weathersbee, capelão temporário da Universidade Baylor.

Lake foi considerado morto no Centro Médico Batista Hillcrest, disse a supervisora de enfermagem Pat Mahl. A mulher que estava sendo batizada aparentemente não tinha entrado na água e não estava machucada.

Pastores na Universidade da Igreja Batista freqüentemente usam um microfone durante batismos, disse Jamie Dudley, esposa de Ben Dudley, e administradora da igreja.
“Ele segurava o microfone para que todos pudessem ouvi-lo. É a única forma de se falar alto o suficiente,” ela disse.

Cerca de 800 pessoas assistiam à missa, que foi maior do que o normal, pois era final de semana de retorno para casa na Universidade, disse Dudley. Lake esteve na igreja por nove anos, os últimos sete com pastor.”

Fonte: http://www.overbo.com.br/modules/news/article.php?storyid=40 

“Choque mata jovem no palco  
 

O vocalista da banda natalense de trash metal Ravanes, Arinilson Régis de Medeiros, o ‘‘Chapula Davis’’, de 20 anos, morreu eletrocutado por volta das 5h de domingo enquanto se apresentava no festival de música Rock in PV, sediado no município de Pedro Velho (distante 86km de Natal). O acidente ocorreu no momento em que o músico cantava a canção Tormenta, de autoria do Ravanes e que, segundo os próprios integrantes do grupo, seria a última música tocada durante o evento.

A banda Ravanes subiu ao palco montado no clube Cantinho da Gente, localizado na Rua 12 de Outubro, pouco depois das 5h. De acordo com a produtora de um banda que acompanhou toda a movimentação (mas preferiu não se identificar) desde o acidente até a chegada de Chapula Davis ao Hospital-Maternidade de Pedro Velho, o show do Ravanes durou não mais que 20 minutos. ‘‘Era a quinta ou sexta música. Estava chovendo e, como já era de manhã, apenas umas 30 pessoas estavam no local’’, conta. Ela lembra ainda que as últimas palavras ditas pelo músico foram: ‘‘Essa é a nossa música de trabalho que vai estar no nosso CD que está chegando por aí e ela se chama Tormenta’’

Segundo ela, uma ambulância chegou ao local três minutos após o acidente e levou o músico para o hospital. Enquanto Chapula Davis era atendido pela equipe médica, os quatro integrantes restantes do Ravanes choravam apreensivos. A notícia da morte foi dada pela produtora, que a recebeu de um funcionário do Hospital-Maternidade de Pedro Velho. O corpo do vocalista do Ravanes deixou o município e partiu em direção a Natal por volta das 7h30. O Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep) o liberou pouco mais de uma hora depois e divulgou como causa da morte o choque elétrico.

Os rockeiros do Ravanes estavam programados para fazerem o penúltimo show do Rock in PV. O grupo tocaria antes da banda Bigornia, que, por motivo não explicado pelo produtor do evento - de nome Charles e não localizado pelo Diário de Natal até o fechamento desta edição - se apresentou no lugar do conjunto liderado por Chapula Davis. Estiveram também tocando no evento DJ Cassiano, Andréa Doria, Zero 8 Quatro e The Mechanix. A produtora afirmou que a desorganização do festival de música realizado em Pedro Velho foi notada pelos participantes do Rock in PV antes mesmo de os músicos tomarem o ônibus que levariam estes de Natal ao município-sede do evento.
Segundo ela, a produção pagou apenas R$ 600 dos R$ 1 mil exigido pela empresa contratada para transportar os músicos e os equipamentos até Pedro Velho. Como solução, ela explicou que os próprios músicos juntaram R$ 400 e pagaram o transporte. ‘‘A morte é absurda. A estrutura do palco era tão precária que a pessoa que trabalhava para a produção do evento testou o microfone enrolando-o com uma flanela, com medo de levar um choque. O show sequer dispunha de um mesário de som’’, conclui.”

Fonte: http://diariodenatal.dnonline.com.br/site/materia.php?idsec=2&idmat=148248

Em ambos os casos, a causa da morte foi uma só: problema de fuga de corrente em algum dos aparelhos (como já vimos, nem precisa ser na mesa de som) e falta de aterramento. Os seus microfones (não cita, mas eram modelos com fio*) estavam energizados. Ao encostar neles e ao mesmo tempo terem contato com o solo...

* Nota: microfones sem fio são imunes a esse problema pelo fato de não haver contato físico (fio) entre o transmissor e o receptor.

Só por essa função, o aterramento já deveria ser considerado essencial e obrigatório. Aliás, já é:

“LEI Nº 11.337, DE 26 DE JULHO DE 2006.

Determina a obrigatoriedade de as edificações possuírem sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização de condutor-terra de proteção, bem como torna obrigatória a existência de condutor-terra de proteção nos aparelhos elétricos que especifica.
 
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º  As edificações cuja construção se inicie a partir da vigência desta Lei deverão obrigatoriamente possuir sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização do condutor-terra de proteção, bem como tomadas com o terceiro contato correspondente.

Art. 2º  Os aparelhos elétricos com carcaça metálica e aqueles sensíveis a variações bruscas de tensão, produzidos ou comercializados no País, deverão, obrigatoriamente, dispor de condutor-terra de proteção e do respectivo adaptador macho tripolar.

Parágrafo único. O disposto neste artigo entra em vigor quinze meses após a publicação desta Lei.

Art. 3º  Esta Lei entra em vigor noventa dias após sua publicação.

Brasília,  26  de julho de 2006; 185º da Independência e 118º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Luiz Fernando Furlan
Márcio Fortes de Almeida”

Infelizmente, a lei, de 2006 chegou tarde para alguns.

2) Proteção contra descargas atmosféricas.

É o caso do pára-raio. Se um raio cair em um local protegido por pára-raio, este conduzirá toda a energia do raio até a terra, dissipando-a.

3) Proteção contra transientes de energia

Em artigo anterior, já estudamos que motores elétricos e outros equipamentos de grande consumo podem provocar oscilações de tensão, causando desde mal-funcionamento a até queima de aparelhos. Inclusive alguns problemas podem gerar ruídos e induções audíveis, em um sistema de sonorização. Curtos-circuitos também podem provocar variações de tensão. O aterramento ajuda a drenar essas variações de tensão (em especial as sobretensões), de maneira a proteger o equipamento e inclusive minimizar ou mesmo eliminar problemas de ruídos.

4) Proteção contra eletricidade estática

Cargas elétricas estáticas, que se formam naturalmente pela abrasão entre alguns tipos de materiais  em geral não tem capacidade para ferir ninguém (mas percebe-se o choque), mas podem ser “fatais” para circuitos eletrônicos delicados. O aterramento drena também a energia estática, não deixando ela se acumular, protegendo assim os equipamentos.

5) Proteção contra interferências de rádio-freqüência

Na atmosfera, temos sempre presentes ondas de rádio-freqüência, originadas nos aparelhos celulares, torres de transmissão de televisão, rádios de comunicação, rádios FM e AM, etc. Esses sinais de RF (Rádio-Freqüência) são absorvidos pela carcaça metálica dos equipamentos ou pelos cabos (cabos de grande comprimento funcionam como verdadeiras antenas, por isso devem ser evitados), e não tem um destino certo quando não são aterrados. Neste caso, esses sinais são absorvidos e inseridos ao sinal da mesa de som ou outros equipamentos, gerando ruídos indesejáveis nas caixas. O aterramento serve como uma forma de escoamento destes sinais que são absorvidos por partes metálicas, os enviando para a terra (e não para os alto-falantes).

6) Ponto de referência elétrica de tensão nula (= 0V)

Como já falamos acima, muitos aparelhos eletrônicos (ou seja, todos os de informática e de áudio) precisam de uma referência para atingirem o melhor funcionamento. Sobre este assunto, vejam o seguinte texto:

“(...) Em todos os sistemas eletro-eletrônicos é necessário se ter uma tensão de referência (ou um referencial, como também é chamado). Dentro dos aparelhos existem várias tensões, como por exemplo as tensões das fontes de alimentação, as tensões dos geradores de corrente e/ou dos geradores de tensão e as tensões de sinal. Todas estas tensões devem estar correlacionadas entre si de uma forma preestabelecida. Para isto, é necessário se fazer um aterramento interno no aparelho, o qual fornecerá um referencial seguro para o funcionamento correto deste aparelho. Caso este aterramento não seja feito, podem ocorrer, de forma muito aleatória, oscilações internas, audíveis ou não, que prejudicam o som.

Vou lhes dar um exemplo: um amigo meu, que mora próximo à minha residência, possui um conversor digital/analógico da Pink Triangle Ordinal, que é o mesmo que eu tenho. (...) É um ótimo aparelho pois possui 95 pontos de qualidade auditiva pela revista alemã AUDIO. Nos artigos anteriores falei sobre pontuação auditiva.

Voltando ao exemplo: o conversor do meu amigo, por ser o mesmo que o meu tem um som tão bom quanto o meu. No entanto trabalha em uma temperatura muito mais alta do que o meu aparelho por uma razão aparentemente inexplicável. Abrimos os dois aparelhos e verificamos que são realmente idênticos. O que notamos é que, devido a alta temperatura do aparelho dele, os transformadores internos estão ficando com uma coloração marrom escura, mostrando que o sobre-aquecimento os está prejudicando, fato este que os está levando a correrem o risco de algum dia poderem vir a queimar.

Em seguida, analisamos os nossos sistemas de som e notamos uma diferença importante: o meu sistema tinha aterramento e o dele não. Colocamos então o aparelho dele no meu sistema e vejam só: a temperatura se normalizou! Ficou igual à temperatura do meu aparelho que estava lá.

Concluímos então que a falta de aterramento do sistema do meu amigo está causando uma falta de referencial interno no aparelho dele, elevando assim alguma tensão lá dentro, de forma a sobre-aquecê-lo.

Situações semelhantes devem existir por aí. Suponhamos que um aparelho  qualquer que tenha três pinos no cordão de força, onde o terra foi anulado através de um adaptador especial e venha eventualmente a queimar. Normalmente não se cogita que a eliminação do terra possa ser uma das razões para o dano deste aparelho. Portanto, o aterramento é fundamental e pode ser vital para o seu sistema.

Este exemplo ilustra bem como a falta de aterramento pode, de forma perniciosa, estar destruindo o seu equipamento, sem que você o saiba. (...)

Fonte: http://www.byknirsch.com.br/artigos/03-05-aterramento-fazdif-prt-01.htm 

Por tudo o que já expomos acima, não é à toa que alguns fabricantes excluem a garantia do produto se o mesmo não estiver devidamente aterrado. Mesmo o “simples corte” do pino terra da tomada elétrica do equipamento, como muitos fazem para não precisar usar adaptador, já é motivo para a exclusão da garantia.

Assim, já é possível entender que o aterramento é essencial. Protege a vida humana e o bolso, ao proteger os equipamentos.

Fazendo o aterramento

Não é do nosso interesse ensinar a fazer o aterramento, coisa que o livro e o documento da Procobre, citados acima, já o fazem muito bem. Entretanto, vamos apresentar alguns problemas comuns encontrados em instalações de aterramento, alguns mitos e algumas verdades.

A) Aterramento do pára-raio pode ser usado para aterrar outros equipamentos?

Não! Nunca! Se um raio cair, a altíssima energia irá se espalhar pelo fio do pára-raio em direção à terra e também em direção à tudo o que estiver ligado a ele, inclusive os equipamentos que estão utilizando o sistema como aterramento.

Em construções, o aterramento do sistema elétrico e o do aterramento do pára-raios são distintos, em geral feitos um bem longe do outro.

B) Pode-se usar as ferragens das colunas e vigas da casa ou do prédio como aterramento?

Sim, é uma boa idéia. As ferragens são todas interligadas entre si, com grande massa, e o concreto tem resistividade elétrica melhor que a do solo propriamente dito. Entretanto, há alguns poréns. Essa ligação só pode ser feita em prédios que não tenham pára-raios, porque o aterramento do pára-raios se utiliza da estrutura de ferragens do prédio, na maioria dos casos. Por outro lado, para ligarmos um fio de cobre na ferragem do prédio, não basta apenas enrolar o fio em volta do vergalhão. É preciso também soldá-lo, para evitar que a corrosão futura venha a atrapalhar o contato elétrico. É para esse tipo de serviço que existem ferros de solda de 400 Watts de potência, ou até mais. Por último, vergalhões de colunas (verticais, vão até o solo) apresentam desempenho muito melhor que as vigas (horizontais). 

C) Uma haste enfiada no solo resolve?

Talvez sim, talvez não. Tudo dependerá do tipo de solo. Solos arenosos são muitos ruins para aterramento, logo uma grande quantidade de hastes será necessária. Em alguns casos, mais de 15.

D) Encontrei no mercado hastes de cobre de 1 metro a até 3 metros. Qual devo usar?

Barras curtas, de 1 a 1,5 metros são indicadas para solos rochosos, com pouca profundidade de camada de terra. Em compensação, será necessário um maior número delas. As barras mais utilizadas para aterramento em solo não rochoso tem de 2 a 3 metros. Quanto maior a barra, melhor capacidade de transferência de energia para o solo ela tem, e com isso uma menor quantidade será necessária.

E) Um bom aterramento começa com o quê?

Apesar de haver várias formas de se instalar as hastes (cada uma mais adaptada para um tipo de solo), as instalações de aterramento mais comuns contam com 3 barras, instaladas em forma de triângulo eqüilátero (3 lados iguais), com distância entre elas não menor que o comprimento de cada barra. Para ajudar na condução elétrica, em volta da barra é cavado um buraco com pelo menos 50cm de profundidade em volta da haste, preenchido com salitre (um tipo de solo rico em sal, e ótimo condutor elétrico). É colocada uma caixa de inspeção, para as verificações periódicas.

Também é interessante que o local esteja sempre úmido, pois a umidade do solo ajuda na dissipação da energia. Um jardim é um ótimo local para um aterramento. Mas o salitre mata plantas.

Feito o aterramento inicial, faz-se a medição do mesmo. Havendo necessidade, instala-se mais hastes, até atingir o valor ideal.

As hastes são interligadas umas às outras por um fio grosso, com diâmetro igual à dos condutores de fases do local (por exemplo, se o padrão recebe um cabo de 10mm² na fase, o fio entre as hastes também deverá ser de 10mm²). Da haste, parte um outro fio com grande bitola até a barra de terra, no quadro de distribuição de energia (quadro de disjuntores). Nessa barra se concentrará as ligações de diversos fios terra, cada um ligando os diversos equipamentos e tomadas do local.

Os fios terra deverão ser separados por tipo de equipamento. Um fio terra que atende o chuveiro não poderá ser usado para o ar-condicionado, e este fio terra não poderá ser utilizado para os computadores ou equipamentos de áudio. Caso sejam usados junto (um mesmo fio terra interligando um motor e um equipamento eletrônico (computador, áudio), podem haver induções de ruídos e outras interferências.

A preocupação se estende até as tomadas elétricas. Todas precisam seguir um padrão de polaridade. Uma inversão entre o negativo e o terra, por exemplo, causa enorme problemas.

E) Como testar se o aterramento está bom?

A maioria das pessoas faz isso com um multímetro, medindo a diferença de potencial (diferença de voltagem) entre a fase (fio positivo) e o terra. Outros testam com lâmpada, ligando uma lâmpada incandescente entre a fase e o terra, verificando se a mesma acende e com boa luminosidade.

Apesar dos 2 testes acima poderem dar uma boa idéia do aterramento, não são exatos. O único aparelho que pode informar com exatidão sobre a qualidade de um aterramento é o terrômetro. É o terrômetro que determina a quantidade de hastes necessárias até se atingir o valor adequado, ou se o aterramento feito nos vergalhões da construção é suficiente.

F) Fiz o aterramento, com auxílio de engenheiro e tudo medido com terrômetro. Está 100%. Posso dar o caso por encerrado?

Não! Com o tempo, as conexões entre as barras e o fio terra (fio que interliga as barras de aterramento e o sistema elétrico) ficam com folgas ou corrosão (zinabre, etc). Por isso elas devem ser verificadas periodicamente. Além disso, com as chuvas, a camada de salitre é naturalmente diluída pelo solo, necessitando de reposição. Em geral, as instalações de terra possuem uma caixa para visitação, exatamente para se verificar esse tipo de situação.

G) Posso usar o fio neutro como terra, interligando os terminais. Ele também é zero Volt, não?

Não! Nunca. Nem sempre o neutro tem potencial igual a zero Volts. Em muitos casos, ele tem alguma voltagem presente, de poucos a até uma dezena de Volts. Isso pode ser resultado do uso de  equipamentos que não possuem os circuitos bem isolados, balanceamento de carga no circuito elétrico, etc, mas é algo comum de acontecer, principalmente em instalações antigas.

Essa voltagem, apesar de insuficiente para dar choque em alguém, não terá a menor utilidade como referencial para o equipamento, inclusive atrapalhando o seu funcionamento ou mesmo podendo causar danos. Por menor que seja a voltagem!

Além disso, caso ocorra algum curto-circuito ou algum eletricista fizer uma inversão de polaridade, estaremos colocando tensão no terra, o que em geral representa queima do aparelho ou choque em alguma pessoa.

H) Mas o neutro lá do local é aterrado. Então nesse caso posso usar o neutro como terra?

As concessionárias de energia, já há alguns anos, tem obrigado novas construções ou mesmo reformas de construções antigas a interligarem o neutro do quadro do relógio (marcador de  consumo) em uma haste de terra. É um tipo de aterramento feito principalmente para evitar que problemas alheios (curto-circuito no transformador, em um vizinho) se espalhe e atinja outras residências.

As concessionárias exigem, em geral (cada concessionária estabelece suas próprias regras), uma única haste, de X metros de comprimento (em geral 2 metros) , independente do tipo de solo. É feito assim porque, existindo vários aterramentos em várias casas diferentes na mesma região (do transformador), eles funcionam em conjunto, como se fosse um único aterramento eficiente.

A responsabilidade da compra do material e da instalação é do usuário, não da concessionária. E o usuário, ao chegar na loja e descobrir que uma haste de 1 metro custa metade do preço da haste de 2 metros (na faixa de R$ 70,00 cada haste), acaba muita vezes “economizando”, usando uma haste de tamanho diferente do indicado (após instalada no solo, ninguém sabe se a haste é de 10cm ou de 3 metros). Além disso, ninguém faz o estudo do solo para saber a quantidade de barras necessárias, não se coloca salitre, não é feita medição por terrômetro, ninguém faz verificações periódicas do estado das ligações.

Como já dissemos, esse aterramento só é útil em conjunto com o aterramento de outras residências, e assim apenas para proteção de problemas que aconteçam de fora para dentro. Não se espante se alguém reclamar que esse aterramento é feito para proteger a concessionária! Por regulamentação da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), os consumidores podem pedir indenização por problemas elétricos a que não deram causa (externos às suas residências. Pense em um transformador que entra em curto, jogando grande quantidade de energia no neutro da região. Ou em um acidente de carro que atinge um poste, e os fios balançando encostam uns nos outros. E crianças jogando bola na rua, atingindo os fios, que encostam entre si. São todos problemas externos mas que podem causar danos internos às residências. Mas quem tiver um neutro aterrado não será atingido pelo problema, já que a energia será escoada para a terra antes de atingir os aparelhos eletrônicos.

I) E qual fio que é usado para servir de fio terra? Qualquer bitola serve?

A norma manda que o fio seja sempre de cor verde, ou verde com uma listra amarela. Entretanto, a bitola desse fio deve ser calculada por um engenheiro ou eletrotécnico devidamente habilitado, que o fará em relação ao dimensionamento de carga instalado, tipo de consumo, distâncias percorridas, etc.

J) Como trabalham os profissionais de áudio?

Para quem faz sonorização de eventos diversos (cada dia em um lugar diferente), como as empresas de locação de equipamento, a parte elétrica de um evento é sempre preocupante. Como nunca se sabe a situação da instalação elétrica de um local, a maioria das empresas acaba fazendo as conexões de energia diretamente nos quadros de entrada, de forma a abandonar o sistema elétrico local (desconhecido) em troca de um sistema conhecido (fios e disjuntores da própria empresa). Nesses casos, havendo aterramento do neutro, pode-se aproveitar o mesmo como fio terra, e pede-se a Deus que esse aterramento seja eficiente e que nenhum problema com os postes e transformadores aconteçam a durante o evento.

Em não havendo aterramento disponível... vai sem aterramento mesmo. Cobra-se um valor a mais para compensar o risco de danificar algum aparelho por falta de aterramento.

Conclusão

De tudo o que foi exposto, vimos que o aterramento é algo importantíssimo para a proteção (tanto pessoal quanto para os equipamentos), afetando diretamente a qualidade de áudio que obtemos. Visto assim, gastar dinheiro na contratação de um profissional para a montagem de um sistema de aterramento eficiente não deve nunca ser considerado como custo, mas sim como investimento em segurança e qualidade. Quanto maior o sistema de sonorização, mais importante é o aterramento, visto que um único aparelho defeituoso pode “contaminar” todo o sistema. Para quem trabalha com equipamentos digitais, que são ainda mais sensíveis, um aterramento é mais que obrigatório.
Mas a conclusão mais importante é: consulte um profissional habilitado! Não saia simplesmente enfiando hastes de cobre no chão e achando que terá bons resultados.

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Contribuiu Leandro S. Bastos

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Este artigo encerra a série "Eletricidade e Sonorização". Agradecimentos ao engenheiro eletricista Devson Nogueira, que revisou todos os artigos (e ficou falando o tempo todo: "é mais complicado que isso, mas se é só para dar noções para um leigo, tá bom").